Série de reportagens sobre emprego nos setores tecnológico e de construção civil em Santa Catarina (DC, 18/01/2010)

Um início de ano favorável à indústria e ao comércio sinaliza com oportunidades para trabalho no Estado

A locomotiva da indústria catarinense está embalando novamente. O crédito no comércio segue no azul. E a temporada de verão traz ao Estado milhões de turistas, que movimentam toda a cadeia de serviços. Este cenário inicial favorável à diversificada economia catarinense explica o porquê de tanta expectativa em relação a crescimento e oportunidades de emprego.

Apenas no Sistema Nacional de Emprego (Sine/SC), existem, hoje, 3 mil vagas em aberto à espera de profissionais qualificados no Estado. Comércio e serviços lideram a oferta no embalo do verão, quando empresas ligadas à indústria do turismo, como hotéis e restaurantes, ampliam o quadro de pessoal.

Pensando no médio prazo, os setores deconstrução civil e tecnologia despontam com as projeções das mais otimistas para 2010. Mas atrás de retomada e com o discurso de que a crise internacional é coisa do passado, os segmentos têxtil e metalúrgico também prometem contratações.

A indústria catarinense ainda enfrenta retração no mercado externo – em 2009, o saldo de exportações de SC teve queda de 22,7% em relação ao ano anterior, segundo dados da Federação das Indústrias (Fiesc). Mas o mercado interno mostrou força, principalmente no segundo semestre, e amenizou os impactos da turbulência global, o que deve ficar ainda mais evidente neste início de ano.

Até novembro, último dado disponível, as vendas da indústria catarinense ainda apresentavam queda de 7%, segundo a Fiesc. No balanço do final de ano, o presidente da entidade, Alcantaro Corrêa, projetou um crescimento tanto das vendas quanto do emprego industrial para 2010, no embalo das previsões que indicam uma alta de 5,5% no Produto Interno Bruto (PIB) do país neste ano.

Em SC, a reação apareceu primeiro no saldo de emprego. Pesquisa da Fiesc revela que, embora no saldo anual até novembro ainda registre uma queda de 3,81%, todos os balanços mensais foram positivos de julho até novembro. Para o vice-presidente da Fiesc, Glauco Côrte, isso reforça a tendência de retomada.

– A indústria está se preparando para atender o aumento da produção e deverá liderar o PIB no próximo ano, o que confirma as estimativas de um 2010 promissor – argumenta.

No acumulado dos 11 meses, a pesquisa da Fiesc já aponta saldo positivo do emprego em setores como material eletrônico e equipamentos de comunicação, confecções de artigos do vestuário, artigos de borracha e plástico, cerâmica e têxteis. Mas quedas afetam segmentos importantes, como os de produtos de madeira e metalurgia básica.

Comércio mostra sinais de retomada

Balanço do Sine/SC, com dados acumulados até novembro, indicam a retomada do emprego também em outros setores, como comércio e serviços (veja quadro acima). No comércio, que teve alta de 5,28% no saldo das vagas na relação com 2008, a expectativa é de um 2010 muito melhor do que 2009. Mesmo com uma reação positiva no consumo dos últimos três meses do ano passado, o presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas (FCDL) de SC, Sergio Medeiros, estima uma queda de 5,5% nas vendas de 2009 em relação ao ano anterior. Já para 2010, acredita num crescimento de até 5%.

Para o presidente da Federação das Associações de Micro e Pequenas Empresas de SC (Fampesc), Márcio Manoel da Silveira, apesar do cenário positivo, ainda faltam investimentos na qualificação de mão de obra.

– É preciso investir mais em educação, para termos melhores empresas – defende.

Tecnologia e construção no topo

A AltoQi, de Florianópolis, não poderia estar em melhor lugar em 2010. A empresa está ligada aos dois segmentos mais otimistas: tecnologia e construção civil.

A empresa catarinense, dos sócios Rui Luiz Gonçalves e Jano d’Araujo Coelho, desenvolve tecnologia aplicada à engenharia civil. E prevê crescimento em um ano com o ritmo acelerado de novas obras na construção civil.

O presidente do Sindicato da Indústria da Construção (Sinduscon) da Grande Florianópolis, Hélio Bairros, lembra que muitas das obras aprovadas nos últimos anos começam a ser erguidas agora em 2010, o que traz novo impulso ao mercado. A previsão é de um crescimento de até 8% neste ano, na comparação com 2009.

Bairros diz que o grande desafio do setor é vencer a falta de mão de obra qualificada. Em SC, o Sinduscon pretende avançar em 2010 no projeto de construção de um centro de formação profissional voltado exclusivamente para a construção civil. A entidade busca parcerias para o projeto.

No setor de tecnologia, demanda por profissionais bem preparados também preocupa. Mas Rui Gonçalves, também presidente da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate), confia que o ritmo forte de crescimento será mantido. Ele diz que empresas da região estão atentas para nichos específicos, como o de segurança, que deve ganhar espaço com realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Brasil nos próximos anos.

Em todo o Estado, existem cerca de 1,5 mil empresas de base tecnológica. Quinhentas só em Florianópolis, gerando quase 10 mil empregos diretos. Juntas, as empresas da Capital faturaram R$ 1 bilhão no ano passado. Mas Gonçalves diz que existe potencial para novos investimentos em outras cidades catarinenses. Ele cita o exemplo de uma empresa de Lages, na Serra, que desenvolveu o primeiro software de mergulho do país.

– E isso que eles nem têm praia lá – brinca.

Otimismo não brota no campo

O clima de otimismo não é unânime. No agronegócio, em vez de crescimento, fala-se em recuperação. O vice-presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de SC (Faesc), Enori Barbieri, observa que a redução do preço internacional dos produtos agrícolas também derrubou os preços no mercado interno.

Ele explica que o que está compensando a baixa cotação de itens como milho, soja e feijão é a alta produtividade em relação ao ano anterior. E a queda de alguns grãos que servem de matéria-prima para ração animal beneficia a indústria de carne. Em 2010, ela ainda deve ser favorecida com a abertura de novos mercados.

A principal preocupação de Barbieri é o leite. O Estado é o quinto maior produtor do país, mais o setor sofre com a baixa dos preços e forte concorrência. Ele lembra que das 200 mil propriedades rurais de SC, 75 mil têm na produção de leite a principal atividade, o que afeta a geração de emprego.

Outro segmento que não deve contratar de maneira expressiva este ano é o cerâmico. Segundo o presidente do Sindicato das Indústrias Cerâmicas da Região Sul (Sindiceram), Otmar Müller, os investimentos já foram feitos e agora é questão de usar a capacidade instalada e a mão de obra disponível.

Müller ressalta que o mercado interno é que deve garantir o crescimento em 2010. O setor têxtil também concentra a atenção no consumidor brasileiro. O presidente do Sindicato das Indústrias Têxteis de Blumenau (Sintex), Ulrich Kuhn, acredita que quem depende de exportação ainda terá problemas. Mas num balanço geral, prevê alta de até 6% em 2010, o que reflete em novas vagas.

Na metalurgia, o emprego dá sinais de reação. Mas o presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica de Jaraguá do Sul, Célio Bayer, prega uma postura cautelosa, principalmente entre os exportadores. E faz um alerta: faltam profissionais treinados, inclusive para as vagas de chão de fábrica.

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