A orla da Grande Florianópolis já serviu de cenário para várias filmagens, mas certas gravações feitas com seis crianças nas praias da região tiveram um propósito maior que a edição de vídeos domésticos: verificar como as brincadeiras na praia contribuem para o desenvolvimento infantil.

As imagens foram analisadas durante dois estudos conduzidos pela Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina), com apoio financeiro da Fapesc (Fundação de Apoio à Pesquisa Científica e Tecnológica do Estado de Santa Catarina).

O mais recente destes estudos constatou que “o brincar realmente estimula o crescimento físico e cognitivo”, nas palavras de Mário César Moreira, aluno do Curso de Psicologia da Unisul. “No brincar, a criança tem a oportunidade de desenvolver a sua personalidade, uma vez que ela expõe suas capacidades e explora o meio à sua volta”, diz Mário César, que, ao longo de 6 meses, filmou o filho, então com 2 anos, divertindo-se na Ponta de Baixo, em São José. “Infelizmente vivemos numa época em que os pais e a sociedade em si não têm conhecimento da importância do brincar; imaginam que seja apenas um passatempo e acabam por limitar o tempo da criança com atividades que diminuem a possibilidade da brincadeira.”

Muitos dos pequenos ficam restritos à casa ou à escola também por questões de segurança. A praia é um dos poucos locais abertos que as crianças podem desfrutar gratuitamente, além de ser um ambiente natural relativamente protegido. Nem é preciso ter pás, baldes ou outros brinquedos. “Pude perceber que elementos naturais, como gravetos, pedras e areia, bem como objetos descartáveis como vasilhas e potes de margarina, são suficientes para que uma criança possa brincar, pois na brincadeira essas coisas ganham um novo significado”, acrescenta Mário César. Ele fez suas observações e registros de campo graças à bolsa de iniciação científica do Programa Mérito Universitário Catarinense da Fapesc, que em 2009 permitiu a 328 estudantes participarem de projetos de pesquisa.

A Fundação já havia contribuído para um estudo anterior por meio do seu Programa Pesquisa Universal, voltado a pesquisas que promovam o desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação em Santa Catarina.

Aquele estudo envolveu 4 meninos e 2 meninas, com idade de 1ano e 1 mês a 2 anos e 8 meses. A coleta de dados foi realizada em Canasvieiras, no Pântano do Sul, no Campeche e em praias de São José, em 2008. Uma vez sistematizadas as informações, constatou-se que o ambiente litorâneo favoreceu o exercício do equilíbrio, da atenção e da manipulação de objetos por parte de crianças daquela faixa etária, entre outros aspectos.

“A partir dos resultados encontrados, pode-se considerar que o conhecimento resultante da pesquisa pode contribuir para subsidiar ações educacionais e terapêuticas, com impactos social e econômico, tendo em vista os benefícios que pode trazer para crianças, familiares e educadores”, diz a Profª. Laïs de Toledo Krucken Pereira, do Departamento de Psicologia da Unisul. “A principal dica para os pais é deixar a criança livre em suas escolhas, pois ela sabe muito bem o que fazer. Quando nós, adultos, interferimos, interrompemos a organização da atividade ou o uso que está sendo feito de um brinquedo ou de um objeto com uma finalidade específica que só a criança sabe. E comprometemos seus planos e sua criatividade. Claro, quando a criança solicitar, os pais podem e devem participar, sem esquecer que ela manda na brincadeira.”

Colaboração italiana

Há um terceiro estudo em andamento, mas antes mesmo de seu término, a professora Laïs lançou o livreto “Brincar na praia: a criança de um a três anos” (Florianópolis : Ed. do autor, 2009). A publicação inicia com o prefácio de Myrtha Chokler, diretora de um centro de referência em desenvolvimento infantil na Bolonha, Itália (Istituto per la Formazione e la Ricerca Applicata). Ela teve seu depoimento traduzido como no trecho a seguir: “O prazer vivido na aventura cotidiana de explorar, de conhecer, de tentar e, sobretudo, compreender, cria na criança a confiança nas próprias capacidades para perceber e pensar, com o sentimento íntimo de ser autor e protagonista de suas emoções, de seus achados e de suas realizações”.

No capítulo Como a criança brinca?, lê-se que na praia a criança pode se locomover à vontade: correr, engatinhar, cair e rolar, escorregar. Todas as crianças observadas, principalmente os meninos, exploraram o espaço em volta engatinhando, andando ou correndo. “É bom também brincar de cobrir o pé com areia. Limpar os pés pode até virar brincadeira, se houver um companheiro para achar engraçado”, relata Laïs, no livreto fartamente ilustrado com imagens infantis.

“Tudo na praia, a água, a areia, os pássaros, gravetos e objetos diversos, interessou as crianças. Atirar areia no ar, engatinhar, correr, tudo foi motivo de diversão. Repetir muitas vezes o mesmo gesto não se mostrou cansativo, mas uma maneira de aperfeiçoar a ação e observar os resultados. [...] Na criança tudo funciona junto, integradamente. As diferentes habilidades, os diferentes aspectos só podem ser isolados para fins de estudo. Inclusive a atividade e o funcionamento do cérebro. Os primeiros anos de vida constituem o período de mais intenso desenvolvimento do cérebro, e brincar é a principal fonte desse desenvolvimento”, conclui o livreto, disponível em CD-Rom na Biblioteca da Unisul.

(Fapesc, 29/07/2010)

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